Natal: tempo de voltar para casa.

Muitos dos que durante o ano todo conjugam a saudade e a distância da família, nessa época  de Natal voltam para casa. Me lembro bem, quando ainda criança e adolescente, que no Natal nossa pequena cidade de Armazém até parecia mais povoada. Era gente que não sabíamos de onde vinha, nem “de que gente era”. Gente que vinha passar o natal com os seus; gente da nossa gente, da nossa terra, mas que morava longe de casa. Assim as festas de família reuniam e ainda continuam reunindo os que a vida conduzira por caminhos diferentes.

Os homens no corre-corre da vida estão muito habituados a viver longe: longe dos seus, longe de si.  Vivemos na pele, na casca, no exterior de nós mesmos. O que se sente, se vive sem muito pensar. O que se pensa, se pensa pouco, sem muito refletir. Assim, deixamos que muitas vezes nosso interior pareça uma casa sombria e desabitada de nós mesmos.

O mundo de fora nos toma a capacidade de interioridade. As tecnologias nos aproximam virtualmente de quem está longe, mas facilmente nos afastam de quem está próximo. O próprio clima do “natal-comércio” nos estimula freneticamente à exterioridade. Um Natal de muitos presentes, mesas fartas, luzes e festas, mas com pouca profundidade e sentido que realmente faça sentido.

Mas o Natal Cristão é diferente. É boa nova.  É convite. É tempo de voltar para casa: a casa da família, da comunidade e, especialmente, a casa do coração. Tempo de entrar nos quartos escuros; tempo de curar as lembranças; tempo de abraçar e se reconciliar com as pessoas que compõem o cenário de nossa casa e de nossa história. Tempo de limpar, reconstruir, restaurar, transformar e, enfim, habitar a própria casa.

Sobre isso da limpeza de natal me recordo bem. Minha mãe sempre foi caprichosa com as coisas. Nessa época, mais ainda, parece que tinha que limpar até mesmo o que não estava sujo. Paredes, janelas, jardim, quintal… tudo era meticulosamente preparado para o natal. No centro da casa, um belo presépio que recordava o sentido mais profundo de tudo aquilo e de tanta limpeza.  Sim,  pois além de voltar pra casa, natal é tempo de deixar a casa em ordem, bem limpinha!

Mas, se de repente você achar que sua casa não está bem “ajeitada”, e que não dá mais tempo, não tem problema. Jesus nasceu numa estrebaria!  Se talvez sua casa, de tão desabitada pareça mesmo uma estrebaria, não se preocupe, não. Nada do que é humano, nada do que temos guardado nos cômodos de nossa casa assusta o Senhor. Ele nos conhece profundamente. É mais íntimo que o nosso próprio íntimo.  É Ele o verdadeiro morador de nossa casa.

Mesmo que tenhamos saído de casa, nossa casa nunca está desabitada, pois Ele não nos abandona. Mas não esqueça: natal é tempo de voltar para casa. Importante e essencial é estarmos lá, no coração. Dentro de casa: é lá que o verdadeiro Natal precisa acontecer.

Feliz volta pra casa. Feliz Natal!!!

 

Que falta faz a Paz!

Neste ano de 2015, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) convocou a Igreja a intensificar a reflexão e a promoção da paz. Nada mais oportuno, diante um tempo fortemente marcado por uma infinidade de conflitos político, étnico e religiosos que assolam a humanidade toda.

Por traz disso tudo, é fácil perceber exacerbado desejo de riqueza e poder. Grandes potências fabricam e vendem armamento para enriquecer e acabam tornando-se reféns de sua própria ganância. Outros, matando em nome de Deus, esquecem que o ser humano é imagem e semelhança de Deus. Outros ainda, rendem-se aos sentimentos de ódio e vingança presentes no coração humano. A vida parece que nunca valeu tão pouco!

No Brasil, pasmem, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, acontecem cerca de 140 homicídios dolosos por dia – mortes onde há intenção de matar. E isso são apenas os casos registrados. Agora, imagine os outros tantos que nem aparecem nas estatísticas. Sem falar de outras tantas formas de violência presentes em nossa sociedade…

São cenas tristes e chocantes que todos os dias as novas mídias e a velha televisão nos apresentam, retratos do nosso tempo aos quais muitos querem fechar os olhos (para não perder a paz!), mas que nos alertam para a urgente promoção de uma “cultura da paz”. Algo que precisa nascer a partir de cada pessoa, pois só quem vive a paz dentro de si, pode construí-la ao seu redor.

Há poucos dias o Papa Francisco profeticamente declarou: “Estamos próximos ao Natal: teremos luzes, festas, árvores luminosas e presépio. Tudo falso: o mundo continua fazendo guerras. O mundo não entendeu o caminho da paz!” E nós, entendemos e estamos trilhando o caminho da paz?

A humanidade, de mãos estendidas, refém das guerras, do ódio e do desamor implora por justiça e vida digna, coisa impossível onde a paz é apenas uma “utopia”. O que podemos fazer? Como ajudar?

Rezemos e trabalhemos para que a Paz se torne sempre mais presente em nós; entre nós e por meio de nós!

Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. Mt 5,9

Fora de Moda?

Outro dia, dialogava com dois jovens sobre questões de fé, religiões e catolicismo, quando um deles me perguntou: Você acha que a igreja católica ainda tem algo de bom para oferecer às pessoas no mundo de hoje? Sim, sem dúvidas!  Oferecemos Jesus Cristo! Temos os Sacramentos deixados por Ele, Sua Palavra, a Eucaristia, a intercessão de Maria, além do testemunho de inúmeros homens e mulheres santos.

Santos? Perguntou-me de salto, com os olhos arregalados. Senti que o clima esquentou. Nós não acreditamos em santos, só Deus salva; só Jesus, disse o jovem evangélico. E então desfiou-me uma série de versículos bíblicos e outras considerações para dizer-me que “santo” não é coisa de cristão, e também que isso já é algo ultrapassado, “fora de moda”.

Intrigou-me a palavra que o jovem empregou para desdenhar nossa crença na santidade: “Fora de moda”. Fiquei pensando no que ele quis dizer com isso. Será que ele pensava que seus argumentos já haviam vencido nossa doutrina? Ou será que ele quis dizer que ser santo não cabe na nossa mentalidade pós moderna?

Certamente o jovem não tem bom entendimento de nossa doutrina sobre a santidade. Mas, às vezes percebo que nem mesmo entre os católicos isso é algo claro. Daí o fato de muitos católicos viverem uma fé repleta de devocionismos, mas com pouco fruto e testemunho cristão. Seria isso que o rapaz quis dizer com “fora de moda”?

Lembro-me de uma celebração em que o ministro perguntava na homilia: Quem daqui quer ser santo? Olhei, e não vi nem metade da Igreja com os braços erguidos. Então o pregador continuou: E quem quer ir pro céu? Quase todos ergueram o braço, embora uma senhora que já aparentava estar com a passagem comprada disse que queria, mas que poderia demorar ainda um pouco mais!

Me inquietei! Entrar no céu não é ser santo? Sim! Para entrar no céu precisamos ser santos, o que não se dá tão somente por nossas obras, mas pela graça de Deus, claro. Mas almejar o céu, sem se esforçar, ou ao menos querer uma vida santa é contraditório. É o mesmo que querer a benção de Deus e não querer comprometer-se com Ele (aliás, mentalidade consumista presente hoje em muitos filhos da igreja).

Precisamos buscar a santidade! E que seja bem entendida essa santidade não como uma recompensa, não como um prêmio ou destino, mas como um caminho percorrido pouco a pouco, no cair e levantar-se e nas labutas de todo dia. Santidade não como algo pronto, estático, mas uma busca sincera e verdadeira de uma vida construída segundo as linhas do Evangelho.

Santidade é, sobretudo, um querer de Deus para nossa vida: Sede santos como vosso pai celestial é santo! Diz a Palavra em Mt 5,48. Por isso tenhamos cuidado para não cair na fala equivocada de quem acha que o culto aos santos tira o lugar de Deus, que é idolatria, ou que é uma invenção da igreja católica. A igreja, como dizia São João Paulo II, existe para levar os seus filhos a serem santos. E a santidade é a força mais poderosa para levar Cristo ao coração dos homens. Como lírio perfumado, os santos, com seu belo testemunho exalam o bom odor de Cristo sobre a terra.

A santidade não pode ser entendida como algo ultrapassado, fora de moda, inatingível ou coisa para poucos privilegiados. A santidade é a nossa vocação comum, nos ensina o Papa Francisco; nascemos para a santidade. 

Nos resta a pergunta: Queremos ser santos?

Que a celebração de todos os Santos e Santas nos ajude neste caminho!

Fagner José Wilman

Vocação: Sim e não, não dá!

O mês de agosto nos convida a refletirmos sobre a vocação. Vocação, enquanto chamado que Deus faz ao ser humano. Um chamado para uma missão, para um “ser” e, por consequência, para um “fazer” no mundo.

É certo que para que o chamado se concretize em nossa vida, precisamos dar uma resposta. Uma reposta verdadeira, que nos mova por inteiro. Não uma meia resposta, um talvez, quem sabe… Para Deus não podemos dizer sim e não. Ou é sim ou é não. Como diria Sartre, “somos livre no escolher, mas não de escolher”. Nesse sentido também meias escolhas – meias respostas, não servem.

O “sim”, a resposta que Deus nos pede, nunca nos tira nada. Nunca nos deixa menores do que podemos. Deus quando nos pede algo não nos empobrece. Ele sempre tem muito mais a nos oferecer. Além do quê, o sim que damos a Deus é um exercício de plena liberdade e que gera vida, alegria e felicidade para nós e, por consequência, para o mundo.

O “não”, por sua vez, normalmente está ligado à auto suficiência, ao medo e ao auto engano. Dizer não ao projeto de Deus é dizer não a si mesmo. É não escutar da própria consciência, onde Deus nos fala constantemente. Dizer não ao projeto de Deus é dizer não à própria razão pela qual se foi criado. Pode acaso o barro dizer ao oleiro qual será sua serventia? (conf. Rm 9,20-21)

Pessoas infelizes são aquelas que não souberam entender o chamado; aquelas que se esconderam ou negaram o plano de Deus para si. São como estradas sem destino. São como rios que se esqueceram do mar. Água parada que vai apodrecendo e contaminando o solo. E como é comum vermos gente assim, que negou a projeto de Deus e com isso também a própria felicidade.

Mas, bem pior do que os que dizem não, são os “sim e não”. Esses fizeram da aparência uma casa bonita por fora, mas podre por dentro. Mostram uma coisa e vivem outra. São como a semente lançada na areia, que logo cresce e logo seca, fogo de palha. São os “mornos”, nem quente, nem frio, sobre quem Jesus disse que seriam vomitados.

Deus não nos quer pela metade. Não! Deus nos quer inteiros. Ele não nos criou para o nada. Tem propósitos para nós. Sua voz ressoa no aqui e ali de nossa vida nos convocando à felicidade. Você tem dado ouvidos a essa voz? Ele espera sua resposta. Mas lembre-se: sim e não, não serve!!!

O Inverno e a Fé

Das estações, a que mais eu gosto é o inverno. Tem seus prós e contras, é claro. Mas aquele friozinho, aquela comidinha quente, o calor de um cobertor… é muito bom! Ruim é acordar cedo em meio ao frio. Aquele vento que resseca os lábios. Os dias que ficam mais pequenos a ponto de que quando vemos, já anoiteceu.

Se pensarmos um pouco, o inverno é um convite a interioridade. Um convite ao calor da família e ao recolhimento. No inverno, nomalmente a gente fica mais em casa. É justamente neste aspecto que quero me deter nesta reflexão: “Ficar em casa”.

O homem pós moderno tem dificuldade de ficar em casa, em habitar a própria casa. Não tanto na sua casa – residência, mas na sua casa interior. Temos dificuldade de permanecer em nossa interioridade. Dificuldade de ficar quietos, de buscar a solidão e nos determos por um tempo sozinhos com nós mesmos.

Mesmo na vida espiritual, somos assaltados por um infinidade de reuniões e encontros que nos roubam a nós mesmos. Encontros que, muitas vezes não nos levam a nada. Não acrescentam nada, não nos aprimoram enquanto seres em construção, não nos melhoram. Não que não devamos nos envolver. Para crescer na fé, é também importante participar… ser membros ativos na comunidade religiosa, nos envolvermos nas pastorais. “A fé sem obras é morta”.

Mas precisamos também cultivar a interioridade. Os homens do nosso tempo tem medo do silêncio e da solidão. Mais que isso, tem medo do que podem encontrar dentro de si. Por isso tanto barulho. Por isso muitas vezes arrumamos tantos afazeres…

Temos necessidade de desligar a TV, o rádio, o celular. Precismos nos desconectar das redes sociais e tirarmos um tempo para  ruminar os pensamentos, sentimentos que nos habitam, para restabelecer a nossa conexão com o sagrado, perdida em meio a tantas conexões. É como diz Carl Jung: “Quem olha pra fora, sonha; quem olha pra dentro, acorda”.

   “Habitar a própria casa”… eis algo essencial para quem quer cultivar a fé.  A fé precisa de tempos de inverno. Precisa desse tempo para se ficar em casa.

Fagner José Wilman

A Fonte do Verdadeiro Amor

Em nossos dias, a palavra “amor” anda bastante desgastada e para muitos, quase que desacreditada. Fala-se de amor como se fala de uma coisa qualquer. Amor, no dizer das pessoas, virou algo que se diz sem esforço, sem pudor, que se promete sem cautela, que se pronuncia, sem pensar no seu real significado.

As músicas que povoam diariamente nossos ouvidos, desvirtuaram o conceito de amar, dando-lhe uma função sentimentaloide, “melosa”, coisa ingênua, como algo que dá na gente e passa. Há até mesmo um poeta que fala de um “amor que seja eterno enquanto dure”. Isso como se amor tivesse fim! Mas será que o amor morre? O significado de amor, de fato, anda muito banalizado.

Chama-se amor para uma doação feita de má vontade ou por obrigação; chama-se amor para quem não se ama; chama-se amor até mesmo para o ato sexual. Fala-se muito de amor. Mas que amor é esse? O que queremos dizer quando dizemos amar alguém?

São Paulo em sua carta aos coríntios, define o amor como algo benigno, paciente, sem orgulho, que não espera recompensa, sem vaidade. Algo que supera até mesmo as virtudes da fé e da esperança. (Conf. 1 Cor 13) É neste trecho, chamado “Hino ao Amor”, que São Paulo dá uma das definições mais belas de amor e dos atributos do amor.

O amor, no sentido cristão do termo, não mora na casa dos sentimentos. Ele é operoso. Vive sempre ocupado em buscar a felicidade do outro. “Você sabe que alguém te ama não pelo que ele fala, mas pelo que faz. O amor não sobrevive de teorias” (Pe. Fábio de Melo) Sim, o amor é atitude. Compromisso. Aliás, se você quer descobrir se ama seu marido, esposa, seus filhos, pergunte-se: O que tenho feito por eles? O que sou capaz de fazer por eles? Esse é um excelente termômetro do amor. “O amor é o que o amor faz”. Se não faz, pode ser outra coisa, mas não amor.

O mês de Junho, na Igreja Católica, nos convida a conhecermos, contemplarmos um amor sincero. Um amor que é mais que simples sentimento, um amor capaz de gestos supremos de amor. Um amor que foi capaz de dar-se por inteiro, de dar a própria vida. Somos convidados a entrar no Coração daquele que nos ama com amor eterno: o Coração de Jesus. Aí está a verdadeira fonte do amor.

A figura do Sagrado Coração de Jesus, que normalmente trazemos em nossas igrejas e em muitas de nossas casas, vem justamente nos recordar o amor de Deus, plenamente manifestado no coração transpassado de seu Filho: um coração aberto, amoroso, compassivo e acolhedor.

Você talvez já tenha reparado que a figura do Sagrado Coração tem uma das mãos apontando o coração e outra para quem lhe contempla. Já observou? Ao nos apontar seu Sagrado Coração, Jesus nos convida a experimentarmos o quanto nos ama. É como se Ele nos dissesse: “Olhe, meu coração pulsa por você. Meu amor é seu”. Bela e confortadora imagem.

Mas tenhamos cuidado para que ao contemplar o Coração de Jesus, não caiamos num intimismo frio e narcisista. Mas que demos vida a esse coração no pulsar de nosso próprio coração, na operosidade de nosso amor, sobretudo aos que mais precisam de nós. Deixemos assim, que o Sagrado Coração nos conforte, nos console e nos devolva o verdadeiro sentido do amor, para enfim, com um coração semelhante ao dele, podermos amar de verdade.

Jesus, manso e humilde de coração,

fazei o nosso coração semelhante ao vosso!

O que estais procurando?

Jesus tocava profundamente as pessoas. Mais do que trazer respostas prontas, reacendia no ser humano a capacidade de refletir, resignificar e transformar a própria vida. O que nós, psicólogos, fazemos hoje – incitar que o cliente busque respostas a partir si mesmo – Jesus já o fazia na Galiléia, e com uma sabedoria tremenda, própria de quem conhecia o homem em seu ser mais profundo.

As perguntas que ele fez ainda hoje ressoam entre nós: calam fundo, tocam o homem por dentro. São como flechas certeiras a incendiar o coração de quem se encontra com ele. Impelem as pessoas a crescerem,  a tornarem-se no melhor que podem ser, no que Deus sonhou para elas.

Sim, Jesus continua nos fazendo perguntas. O que estais procurando? É a pergunta que o evangelho nos faz (Jo 1,38). É a primeira pergunta de Jesus que os evangelhos narram, quando ele começa sua vida pública, e as pessoas começam a segui-lo.

O que estais procurando? É a primeira pergunta que precisamos responder, quando iniciamos nosso peregrinar cristão. Sem a respondermos por nossa própria voz, o seguimento de Cristo pode não ser verdadeiro, pois as motivações precisam ser claras.  Jesus quer pessoas inteiras, conscientes do que estão fazendo. Livres na opção de segui-lo e escolhê-lo como seu Mestre e Senhor.

Oxalá, tenhamos a mesma resposta que os discípulos: Mestre onde moras? Ou seja: Senhor, queremos ser mais próximos de ti, queremos conhecer tua casa, tua vida, teu jeito de viver. Queremos ser teus discípulos e contigo aprender a viver.

Fagner José Wilman